sábado, 21 de janeiro de 2017

O INFERNO SÃO OS OUTROS, MAS O DIABO É VOCÊ


Um dos temas que exercem mais fascínio na cultura popular e que frequentemente rende momentos marcantes e reflexivos na literatura é o diálogo com o diabo. Tanto mais quando a querela vai além de uma simples conversa, resultando, dessa confabulação, um pacto. Não raro, em troca de um período de sucesso neste mundo, o interlocutor entrega - ou vende, segundo o imaginário popular - sua alma ao "dito cujo".

Dentre estes momentos literários, destaco dois: o diálogo entre Ivan Karamazov e o "demo" em 'Os Irmãos Karamazov', do russo Fiódor Dostoiévski, e o acordo entre Adrian Leverkühn e o "coisa ruim" no 'Doutor Fausto' do alemão Thomas Mann que, por sua vez, remete ao mais famoso pacto de todos: o 'Fausto', de Goethe.

O que há em comum entre estas passagens? Nelas, o diabo assume forma humana, é extremamente eloquente, inteligente, persuasivo, muito semelhante aos caracteres de Ivan e Adrian Leverkühn. É possível dizer que naqueles momentos de delírio (ou seriam realidade?) Ivan e Adrian miravam um espelho capaz de refletir apenas o lado obscuro de suas personalidades, tudo o que eles desejavam esconder. Por não reconhecerem em si características que consideravam indesejáveis, estes personagens as atribuíam ao demônio.

Como a vida imita a arte, é inevitável traçar paralelos entre Karamazov e Leverkühn, criações de mentes brilhantes, e os seres humanos de carne, osso e sentimentos. Buscar um bode expiatório em quem se possa descarregar culpas é demasiadamente humano. Junte-se a esse instinto, um ser sobrenatural e uma boa dose de misticismo, aliados a uma crença validada pelas tradições judaico-cristãs, chega-se então ao perfeito culpado de todos os males: Lúcifer, Mefistófeles, Belzebu ou seja lá que nome lhe deem.

A lógica é a seguinte: cometi algum crime? Estava possuído pelo diabo. Nada dá certo na minha vida? Deve ser por influência dele. No entanto, o aspecto mais intrigante desta relação entre o homem e a personificação do mal ocorre quando se buscam justificativas para o sucesso e a genialidade de outrem. "Ah! Ele (a) deve ter feito um pacto com o diabo!"

Percebo, com pesar, que essas alusões e maledicências são com certa preferência dirigidas a figuras femininas de sucesso. É como se todo o brilhantismo de uma mulher não pudesse originar-se de seu talento e esforço, mas de uma figura tradicionalmente tida como masculina (assim como o Deus abraâmico, mas isso fica para outra discussão).

Se, como nos ensinam os grandes autores, "aquele que não se deve chamar" é o lado mau e malquisto de cada um, é melhor tomar cuidado se na sua concepção de mundo há um espaço considerável para ele. Se habitualmente recorres a ele para justificar o mal no mundo, talvez haja algo errado contigo. Cada um carrega consigo um diabo à sua imagem e semelhança.

Alguém um dia disse que o inferno são os outros. Pode-se perfeitamente tomar a liberdade para adicionar: o diabo é você.

sábado, 13 de setembro de 2014

Pasadena, pré-sal e novas fontes de energia

O PT é tão simplista... Quer dizer que buscar utilizar outras fontes de energia é ser contra o futuro do Brasil? Enquanto o mundo inteiro busca energias limpas e renováveis, nós temos que continuar reféns dos combustíveis fósseis? Isso só prova a visão estratégica limitada do governo.

Estão tentando usar contra Marina essa história do pré-sal como fizeram com a história das privatizações e o PSDB e venceram três eleições manipulando e apelando para um falso nacionalismo canhestro.

Quem cai nesse discurso mal sabe que o PT faz todo esse esforço apenas para aparelhar as riquezas do nosso país e isso tem sido danoso demais. Basta ver o que tem sido feito com a Petrobras!

A refinaria de Pasadena está aí para mostrar o que eles fazem com o nosso patrimônio.
Você vai cair nessa armadilha outra vez?

O real e as relações entre Presidente e Congresso

O partido do atraso lançou no horário eleitoral a ofensiva do medo contra Marina. Insinuou que por não ter atualmente a maioria no Congresso Nacional, a governabilidade de um possível governo de Marina seria inviável e conclamou os brasileiros a abandonarem os seus sonhos e voltarem à "realidade".

O fato é que a realidade tal qual o PT a apresenta é tudo o que vem sendo FORTEMENTE REJEITADO por grande parcela da população brasileira. Eles defenderam claramente que para governar é preciso fazer o jogo do toma-lá-dá-cá. Até parece que não estão entendendo o recado que a sociedade está mandando: NÃO aceitamos mais esse modo de fazer política baseado na divisão de cargos e orçamentos.

Marina não é Collor (esse sim aliado do PT e da Dilma) nem Jânio. Ela tem uma carreira política sólida e respeitada mesmo por seus adversários, construída após muitos anos de luta e serviços prestados à nossa democracia.

Quando a "realidade" passa a ser insuportável, é preferível apostar, mudar e acreditar que ela possa ser diferente. É o que está acontecendo neste momento: o Brasil quer construir uma nova realidade.

Estado laico?

Uma pena que no nosso presidencialismo de coalizão os candidatos tenham que se ajoelhar ou se curvar perante os líderes de igrejas evangélicas. Esta situação empobrece o debate, jogando-o para o obscurantismo e impede o avanço da agenda progressista.

Acredito que não se deveria nem dialogar com estes grupos, já que eles não propõem soluções para resolver os problemas da economia, melhorar a qualidade da educação, da saúde. Tudo o que eles desejam é exercer influência para impor seus dogmas, restringir direitos civis e liberdades individuais. Assim, eles ajudam a construir, ao lado dos ruralistas e tantos outros representantes de "lobbies" patéticos, o mosaico de figuras horripilantes que tem se tornado o nosso Congresso Nacional e este processo tem se acentuado a cada eleição que passa.

Não vejo solução no horizonte, uma vez que nesta nossa democracia incipiente as pessoas não conseguem separar muito bem a esfera privada daquilo que é de interesse público nem compreendem o conceito de laicidade.

Talvez o parlamentarismo pudesse ser uma opção, mas não estou certo disso...

Enquanto isso os políticos vão precisar peregrinar ao Templo de Salomão ou temer a ira de uma figura abjeta como Silas Malafaia. Pobre Brasil!

O que "A Revolução dos Bichos" pode nos ensinar

Podemos traçar um paralelo entre o livro "A Revolução dos Bichos", do inglês George Orwell, e o atual quadro político brasileiro.

Em resumo, esta obra relata a história de um grupo de animais de uma fazenda no interior da Inglaterra que se sentia subjugado e maltratado pelos humanos. A partir de uma "revelação", o velho porco Napoleão, reconhecido por sua liderança entre os bichos, conclama-os a se rebelar contra esse domínio, buscando construir um futuro glorioso onde todos os bichos se ajudariam mutuamente e formariam uma comunidade na qual não haveria oprimidos e opressores. Após uma batalha, os bichos conseguem expulsar os humanos e assumir o controle da fazenda.

No entanto, os porcos, por se acharem mais inteligentes e legítimos representantes de todos os animais, resolveram impor a sua vontade, atribuindo a si mesmos uma série de privilégios, inclusive o de se instalar na antiga casa dos seus "donos". Os porcos foram paulatinamente construindo a sua própria verdade, moldando um discurso a fim de justificar sua posição, distorcendo os fatos e recriando o passado de acordo com uma visão que lhes beneficiasse. Os porcos utilizaram a propaganda política e abusaram da ingenuidade dos outros animais para exercerem seu poder. Quando as mentiras não eram suficientes para aplacar os questionamentos, logo eram convocados cães de guarda ferozes para expulsar ou exterminar os dissidentes. No fim das contas, os porcos acabaram prevalecendo, aliando-se aos humanos para horror e amargura dos demais bichos.

Lula (o velho porco Napoleão) chegou ao poder em 2002 prometendo um novo tempo de prosperidade e um governo dos trabalhadores. Ao assumir o comando do país, logo tratou de instalar seus companheiros (os demais porcos) nos principais postos para que pudessem sugar as riquezas que eram de todos (Petrobras e demais estatais). Para aplacar as massas, era necessário criar um inimigo (as supostas elites, sendo que os porcos eram quem agora compunham a nova elite) e reinventar ou apagar o passado (para Lula, o Brasil começou em 2003). Quando esta estratégia apresentasse sinais de desgaste, bastaria chamar a militância (os cães de guarda) para atacar dissidentes e supostos inimigos, vocalizando e reproduzindo as mentiras ditadas pela cúpula. No fim, os porcos (o PT) se juntaram aos humanos (banqueiros, empreiteiras, Renan, Maluf, Sarney, Barbalho, Collor) para espanto, decepção e indignação dos brasileiros que acreditaram no engodo (e dos que não acreditaram também).

Este livro foi lançado em 1945 e é uma sátira do stalinismo na velha URSS. Ainda bem que o estudo da história nos possibilita não reproduzir os mesmos erros do passado. A fome de poder do PT é implacável e o partido tem adotado as práticas mais abjetas e escusas para destruir seus adversários e se manter no poder. Conhecendo esta passagem, podemos buscar fazer diferente enquanto ainda temos essa possibilidade e impedir que esta farsa se repita aqui no Brasil. Eles ainda não prevaleceram.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Estado de um partido só

Efeito de se manter um partido por tanto tempo no poder: o PT pôde mudar a composição do STF para torná-lo um tribunal agora com maioria pró-governo. Decisões que foram tomadas no julgamento do mensalão por outros ministros foram derrubadas hoje pelos novos magistrados. Em doze anos, além de aparelharem as estatais, terem buscado o controle do Congresso através da compra de parlamentares, conseguido maioria no Legislativo por meio de uma coalizão com amplo espectro ideológico baseada na troca de favores, agora eles também controlam o Judiciário! O Estado finalmente se fundiu com o partido, como era seu maior desejo.

O pior de tudo é saber que as perspectivas não são nada boas, uma vez que inexiste oposição real no Brasil; existe apenas um grupo incapaz de apontar os (claros) erros e defeitos do governo, cujo único objetivo é assumir o poder. Nosso país não precisa apenas de uma troca de bastão, com o risco de uma guinada à direita. Precisamos é de mudança na classe dirigente, novas ideias e, mais que tudo, um novo sistema político, com mais representatividade.

Já foram doze anos, com possibilidade de se tornarem 16 e mais... O Brasil não merece ter seu destino e futuro subjugados pelos interesses de um grupo.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Balanço das eleições 2012

Passada a euforia pela vitória ou a tristeza pela derrota sobrevirá o momento de reflexão a ser realizada pelos partidos e analistas políticos sobre o que saiu das urnas nestas eleições de 2012, avaliando quem saiu menor ou maior do último pleito, quais as influências dos resultados deste ano no jogo político para 2014 e o que o eleitorado brasileiro emitiu como mensagem para suas lideranças políticas.

Qualquer análise inicial não pode deixar de falar da vitória do PT na cidade de São Paulo após duas eleições. Embora o senso comum conceda todos os louros da vitória ao ex-presidente Lula pela construção da candidatura do seu ex-ministro da Educação desde sua concepção à execução exitosa, esta conclusão simplista pode ocultar o que de fato aconteceu na capital paulista. O resultado obtido por Fernando Haddad não foi fruto do encantamento dos paulistanos pelo candidato, suas propostas ou por seu partido; foi, antes de tudo, rejeição a José Serra, seja pelo desgaste do tucano ao ter se submetido ao crivo popular tantas vezes na última década, ou pela má avaliação da gestão Kassab, que Serra teve de carregar nos ombros durante toda o processo eleitoral. Boa parte do eleitorado paulistano continua a rechaçar o petismo e, mais ainda, o lulismo como forma de fazer política e de administrar a coisa pública. Apesar de se apresentar com ares de novo, uma coligação que conta com o apoio de Paulo Maluf, Marta Suplicy e Luiza Erundina (três ex-prefeitos) não pode ser considerada propriamente uma renovação. Afinal está dada a largada para a disputa ensandecida pelos cargos e postos na administração do maior orçamento do país. Enquanto isso, o atual prefeito da cidade, após ser demonizado na campanha, deve embarcar de vez na base governista como líder de uma legenda que possui quase 500 prefeitos, mais de 50 deputados e nenhum pudor em transitar entre os mais diversos campos e correntes políticas.

A vitória em São Paulo neutraliza as imensas perdas que o PT sofreu na maioria dos grandes centros. A legenda teve um desempenho pífio em Porto Alegre, foi derrotada pelo PSB em Belo Horizonte e Recife no primeiro turno e , numa disputa acirrada que deve deixar graves sequelas, perdeu a prefeitura de Fortaleza no segundo turno. Em Salvador, o candidato petista teve suas pretensões de ser prefeito adiadas por ACM Neto, agora um dos maiores expoentes da oposição. A conquista da capital baiana pelo DEM deve-se muito ao desgaste sofrido pelo governo do estado após greves de servidores públicos. Com isso, ao PT foram impostas duras derrotas nas três principais capitais nordestinas, região onde o partido conseguiu votações consagradoras nas três últimas eleições presidenciais. Quem vem conquistando esse espaço agora é o PSB.

Na região Norte, o PSDB conquistou a prefeitura das duas maiores e mais importantes capitais, Manaus e Belém. Em Manaus, o ex-senador Artur Virgílio Neto foi eleito a contragosto de Lula e Dilma, que se envolveram pessoalmente na disputa. O PSOL chegou ao poder em uma capital pela primeira vez com a eleição em Macapá, além de ter ido ao segundo turno em Belém, o que acaba comprovando o crescimento do partido, em ritmo lento, porém consistente e fiel à sua ideologia, à sua visão de mundo e ao seu jeito de fazer política. Resta aguardar para saber se o movimento persistirá e se espalhará para todo o país ou se foi um fenômeno localizado.

Num cômputo geral, em uma eleição marcada pela sopa de letrinhas devido ao elevado número de partidos que levaram ao menos uma prefeitura, o PSB foi o grande vencedor, chegando ao poder em capitais importantes e obtendo vitórias expressivas e emblemáticas sobre o PT. Ainda não está claro como o partido utilizará todo esse capital político: vai apenas vender caro o apoio à reeleição de Dilma Rousseff, irá alçar voo solo com Eduardo Campos como candidato a presidente ou, menos provável, irá aliar-se ao tucano Aécio Neves. O PT também saiu fortalecido e agora projeta conquistar o governo paulista para derrubar o último bastião do seu ferrenho adversário, o PSDB. Já este último acabou perdendo espaço nos grandes centros das regiões Sul e Sudeste, o que deve preocupar seu establishment e acender a luz amarela para as próximas eleições gerais; sua seção paulista sai derrotada, o que acaba abrindo caminho para Aécio Neves finalmente pleitear o cargo hoje ocupado por Dilma. O PMDB manteve o posto de partido com o maior número de prefeitos, contudo perdeu influência nas maiores cidades do país e deu mostras claras de que irá prosseguir atrelado ao projeto de poder do PT, tornando-se cada vez mais coadjuvante no cenário político nacional.