sábado, 30 de julho de 2011

Chávez muda do vinho para o suco de laranja

O presidente venezuelano Hugo Chávez deu, nesta sexta-feira, declarações surpreendentes sobre o futuro do seu regime. O bolivariano criticou correligionários por utilizarem demasiadamente o termo "socialismo" e questionou por que ele seria obrigado a vestir diuturnamente uma "camisa vermelha", já que as pessoas se mostraram surpresas com seu novo visual: camisa amarela.

Além disso, ele fez um aceno à classe média venezuelana, bem como à iniciativa privada do país, supostamente oferecendo a estes setores um papel que não tiveram nos 12 anos de domínio chavista.

Parece que o presidente teve um esquecimento muito oportuno e conveniente, uma vez que sempre designou o seu domínio político como Socialismo do Século XXI. Porém, por trás desta atitude que, em sua aparência, visa a união dos diversos setores da Venezuela, o caudilho dá sinais claros de que o crescimento da oposição e do descontentamento do povo com seu desgastado governo, o fez repensar o arcabouço do seu regime.

Pode-se pensar que foram apenas declarações soltas e despretensiosas, e não uma desconstrução do ideal bolivariano. No entanto, são de tal forma opostas e vão de encontro a tudo que vinha sendo pregado por ele e seus apoiadores, que nos faz cogitar que o poder e a autoconfiança de Chávez já não são mais os mesmos. Tanto que o outrora orgulhoso e arrogante presidente desceu de seu pedestal para se dirigir aos "burgueses e golpistas".

Mais em: http://www.bbc.co.uk/news/world-latin-america-14351508

quarta-feira, 20 de julho de 2011

É terminada a primavera de Dilma

Foram seis meses e meio e a lua-de-mel entre a sociedade brasileira e a Presidente Dilma parece ter chegado ao fim. A paciência e a condescendência concedidas no início de seu mandato, a partir de agora, viram cobrança por uma postura mais incisiva e resultados concretos.

Com atitudes discretas, um aparente conhecimento de causa e a aversão a bravatas folclóricas, características de seu antecessor, Dilma Rousseff foi premiada pela população, mesmo os que não votaram e contribuíram para sua vitória, com um tempo maior que o previsto para mostrar a que veio. O início de seu governo foi promissor, com tomadas de decisões austeras, responsáveis e estudadas, que agradaram, sobretudo, à classe média.

Um estilo bem diferente de Lula fez com que Dilma se tornasse a queridinha da imprensa e dos colunistas políticos, sempre elogiada nos artigos e reportagens comparativos entre os dois petistas. As críticas eram escassas ou quase inexistentes e até a oposição estendeu o acordo de paz que, como se diz no meio político, em casos de início de mandato não costuma ultrapassar cem dias.

Surgiu o escândalo (mais um) de Antônio Palocci, com a Casa Civil outra vez sendo o centro das atenções em mais um episódio repugnante de corrupção na história recente da política brasileira. Antes de Palocci, recorde-se que José Dirceu e Erenice Guerra também levaram lama ao gabinete deste Ministério. A questão é que o fato não respingou em Dilma e após uma relutante e hesitante saída de Palocci tudo dava a impressão de ter voltado à normalidade.

No entanto, nem bem havíamos nos recuperado e digerido o Caso Palocci, surgem notícias em profusão envolvendo o Ministério dos Transportes. Esta crise se arrasta há um mês e a cada dia aparecem novas acusações e descobertas que deixam a sociedade enternecida, anestesiada e desacreditada de que algo pode, um dia, ser diferente.

O que todos sabem é que corrupção é um problema crônico destes quase nove anos de administração petista. Corrupção institucionalizada, organizada, enraizada em órgãos, repartições e empresas públicas. Tudo feito sem o menor pudor. Um escândalo substitui outro nas manchetes de jornais, os acusados são temporariamente afastados (mas depois retornam, como Delúbio Soares, por exemplo) e a engrenagem segue célere prestando-se ao papel de meio de locupletação para personagens espúrios da nação.

Após tantas notícias negativas, já se começa a fazer uma avaliação mais lúcida do Governo Dilma. E nota-se que em nada difere do governo anterior, sem novas políticas e sem resolução dos problemas herdados. Dilma quase nunca se pronuncia ou manifesta suas opiniões e temos a sensação de que a cadeira da Presidência da República está desocupada.

A Presidente recebeu uma máquina desgastada pelas velhas práticas de fisiologismo e já assumiu o cargo de mãos atadas por um Congresso pra lá de heterogêneo e ganancioso. Junte-se a isso sua incapacidade de tomar o controle da situação e de incorporar o papel de presidente que, por vezes, exige mais politização do que tecnicismo. Resta-nos, agora, torcer para que pelo menos a Dilma técnica entre em ação.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Corinthians, Tevez e os direitos de TV

Na última segunda-feira, 11 de Julho, uma notícia caiu como uma bomba na imprensa esportiva inglesa: um clube sul-americano oferecia uma soma até então impensável para os padrões futebolísticos e econômicos das bandas de cá por um grande astro e goleador da Premier League,o Campeonato Inglês.

Porém, a proposta não causou espanto apenas na terra da Rainha. Aqui no Brasil muitos meios de comunicação passaram a divulgar informações desencontradas ao dizer que o Corinthians tentava repatriar Carlitos Tevez, velho conhecido, por empréstimo, talvez por não acreditarem no que liam nas páginas dos jornais britânicos. Naquele momento, a mídia internacional já falava em uma oferta que girava em torno de £35 milhões ou 40 milhões de euros.

A impressionante oferta corinthiana não ocupou rodapés, mas foi a manchete da página de esportes da rede de televisão britânica BBC, teve destaque em um dos maiores jornais do mundo o "The Guardian", bem como no Daily Mail, que publicou ainda uma extensa matéria sobre a história do Corinthians e o seu momento atual.

A exposição alcançada pelo Corinthians em apenas um dia e meio pode ter surpreendido até o próprio clube, já que Tevez não é nenhuma novidade na vida alvinegra e teve uma passagem pela equipe paulistana há 6 anos, conquistando o título brasileiro.

O fato é que a "audácia" do Corinthians mostra ao mundo a nova realidade do futebol brasileiro, com um campeonato nacional mais valorizado pela TV e com os clubes recebendo muito mais do que no início do século XXI. Isso só foi possível porque os clubes se libertaram das amarras impostas pelo Clube dos 13 e o time da capital paulista foi o pioneiro. Há quem critique a preferência de seu mandatário, Andrés Sanchez, pela TV Globo, mas a opção do presidente corinthiano parece ter sido acertada.

Novos milhões em caixa, aliados a uma gigantesca exposição na mídia, um competente Departamento de Marketing e a uma torcida que compra, literalmente, as ideias vendidas pelo clube (quando ela mesma não é a autora destas ideias) fazem do Corinthians uma marca espetacular e todo este potencial está sendo conhecido pelos europeus, ainda atordoados com a investida.

As torcidas dos times adversários têm criticado os altos valores que Corinthians e Flamengo receberão no novo contrato televisivo; esbravejam um suposto favorecimento aos dois clubes, notadamente os mais populares e midiáticos do país. Injustiça seria se estes dois times recebessem, como vigora até o contrato de 2011, os mesmos valores de outros clubes. O que poderia ser feito para aplicar um pouco de "justiça" nestes contratos seria uma percentagem de acordo com a classificação do campeonato anterior, mas sem deixar de valorizar as marcas que atraem mais o interesse da mídia e que possuem o maior número de jogos transmitidos.

No momento em que o texto é escrito, não se sabe ainda se a proposta pela contratação de Tevez foi aceita pelo clube inglês. Mas o que se sabe, ou ao menos se espera, é que a ambição corinthiana renda frutos e inspire os demais clubes brasileiros a sonhar alto e explorar devidamente suas marcas a fim de tornar nosso campeonato ainda mais atrativo.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Muito mais que vilões ou mocinhos

O programa mais assistido da televisão brasileira, desde muito tempo, é a novela das oito da TV Globo. Muitas histórias já ocuparam a faixa, mas a que vem sendo exibida nos últimos cinco meses e meio tem se mostrado diferente, em muitos aspectos, das suas antecessoras.

“Insensato Coração” pode não alcançar os altíssimos índices de audiência outrora facilmente batidos pelas telenovelas. Nos últimos anos houve uma maior diversificação no acesso às formas de entretenimento e as pessoas passaram a buscar diversão no uso da internet, do DVD para assistir filmes ou mesmo procurar outra programação na TV Paga, fazendo com que o número de televisores sintonizados na TV aberta caísse substancialmente. Apesar disso, ultrapassar frequentemente a barreira dos 40 pontos não é nada desprezível.

Na primeira fase, a novela deu mostras de que seria apenas mais uma seguindo as mesmas regras maniqueístas (e batidas) que perduram desde os tempos que Assis Chateaubriand implantou a primeira estação de TV no Brasil. Mocinhos sem sal e idiotizados, quase irreais, enganados facilmente por vilões muitíssimo mais sagazes e espertos.

A segunda fase veio e com ela surgiram personagens mais interessantes, os diálogos tornaram-se mais inteligentes e as tramas mais excitantes. Além disso, dentro do núcleo responsável pela guinada da novela rumo ao sucesso, a personagem Norma, vivida por Glória Pires, ambígua e complexa, dificilmente enquadrada como vilã ou mocinha revoltada chamou a atenção do público com a sua bem construída e planejada vingança contra o (este sim) vilão Leo, tão bem caracterizado por Gabriel Braga Nunes, e que já entra para a galeria dos mais perversos das telenovelas.

Some-se a isso a mudança de atitude dos mocinhos Marina e Pedro, respectivamente Paola Oliveira e Eriberto Leão, provocada pelos autores Gilberto Braga e Ricardo Linhares, que deixaram de ser passivos e foram dotados de astúcia para passar a perna no seu algoz. Esta manobra deu vida aos personagens e fez o público voltar a torcer pelos protagonistas da história, como é o sonho de quase todo autor e está no script deste tipo de atração.

Deve-se fazer menção também a outro núcleo de destaque, o do banqueiro corrupto Horácio Cortês, vivido por Herson Capri, que carregou a novela nas costas enquanto Norma vivia o seu conflito interior e preparava sua vingança.

Louve-se ainda o dinamismo implementado com a entrada e saída de personagens, dando movimento e novas nuances à trama. Há quem critique o exagero de mortes, mas elas foram válidas e justificadas durante a história.

Outros ingredientes ajudam a construir o sucesso de “Insensato Coração”: a trilha sonora é de qualidade, mesclando desde música eletrônica, passando pelo pop da ascendente Katy Perry, uma bela gravação romântica de Elvis Presley, o samba de Mart’Nália e a maravilhosa performance de Maria Rita no tema de abertura; a fuga da mesmice de bairros cariocas tão retratados em novelas globais como Leblon e Ipanema, para cenários pouco explorados anteriormente como os da Lagoa, Horto e Jardim Botânico, além de Florianópolis.

A novela entrará em sua reta final e já se pode dizer que inseriu um novo marco na construção deste tipo de programa que é o favorito dos brasileiros. Insensato Coração soube renovar-se em si mesma para que a história não ficasse arrastada e previsível, e apresentou personagens com conflitos, ora generosos ora ambiciosos, fugindo do clichê bons contra maus. Mais um ótimo trabalho de Gilberto Braga e Ricardo Linhares que trouxe para a frente da TV muita gente que havia deixado de ver novela.