terça-feira, 5 de julho de 2011

Muito mais que vilões ou mocinhos

O programa mais assistido da televisão brasileira, desde muito tempo, é a novela das oito da TV Globo. Muitas histórias já ocuparam a faixa, mas a que vem sendo exibida nos últimos cinco meses e meio tem se mostrado diferente, em muitos aspectos, das suas antecessoras.

“Insensato Coração” pode não alcançar os altíssimos índices de audiência outrora facilmente batidos pelas telenovelas. Nos últimos anos houve uma maior diversificação no acesso às formas de entretenimento e as pessoas passaram a buscar diversão no uso da internet, do DVD para assistir filmes ou mesmo procurar outra programação na TV Paga, fazendo com que o número de televisores sintonizados na TV aberta caísse substancialmente. Apesar disso, ultrapassar frequentemente a barreira dos 40 pontos não é nada desprezível.

Na primeira fase, a novela deu mostras de que seria apenas mais uma seguindo as mesmas regras maniqueístas (e batidas) que perduram desde os tempos que Assis Chateaubriand implantou a primeira estação de TV no Brasil. Mocinhos sem sal e idiotizados, quase irreais, enganados facilmente por vilões muitíssimo mais sagazes e espertos.

A segunda fase veio e com ela surgiram personagens mais interessantes, os diálogos tornaram-se mais inteligentes e as tramas mais excitantes. Além disso, dentro do núcleo responsável pela guinada da novela rumo ao sucesso, a personagem Norma, vivida por Glória Pires, ambígua e complexa, dificilmente enquadrada como vilã ou mocinha revoltada chamou a atenção do público com a sua bem construída e planejada vingança contra o (este sim) vilão Leo, tão bem caracterizado por Gabriel Braga Nunes, e que já entra para a galeria dos mais perversos das telenovelas.

Some-se a isso a mudança de atitude dos mocinhos Marina e Pedro, respectivamente Paola Oliveira e Eriberto Leão, provocada pelos autores Gilberto Braga e Ricardo Linhares, que deixaram de ser passivos e foram dotados de astúcia para passar a perna no seu algoz. Esta manobra deu vida aos personagens e fez o público voltar a torcer pelos protagonistas da história, como é o sonho de quase todo autor e está no script deste tipo de atração.

Deve-se fazer menção também a outro núcleo de destaque, o do banqueiro corrupto Horácio Cortês, vivido por Herson Capri, que carregou a novela nas costas enquanto Norma vivia o seu conflito interior e preparava sua vingança.

Louve-se ainda o dinamismo implementado com a entrada e saída de personagens, dando movimento e novas nuances à trama. Há quem critique o exagero de mortes, mas elas foram válidas e justificadas durante a história.

Outros ingredientes ajudam a construir o sucesso de “Insensato Coração”: a trilha sonora é de qualidade, mesclando desde música eletrônica, passando pelo pop da ascendente Katy Perry, uma bela gravação romântica de Elvis Presley, o samba de Mart’Nália e a maravilhosa performance de Maria Rita no tema de abertura; a fuga da mesmice de bairros cariocas tão retratados em novelas globais como Leblon e Ipanema, para cenários pouco explorados anteriormente como os da Lagoa, Horto e Jardim Botânico, além de Florianópolis.

A novela entrará em sua reta final e já se pode dizer que inseriu um novo marco na construção deste tipo de programa que é o favorito dos brasileiros. Insensato Coração soube renovar-se em si mesma para que a história não ficasse arrastada e previsível, e apresentou personagens com conflitos, ora generosos ora ambiciosos, fugindo do clichê bons contra maus. Mais um ótimo trabalho de Gilberto Braga e Ricardo Linhares que trouxe para a frente da TV muita gente que havia deixado de ver novela.

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