segunda-feira, 17 de outubro de 2011

A FIFA e os direitos no Brasil

Em Outubro de 2007, o Brasil foi designado oficialmente como sede da Copa do Mundo de Futebol de 2014 pela entidade máxima que rege este esporte, a FIFA. Houve comemorações em várias partes do país, euforia e promessas de trabalho árduo e de que seríamos capazes de promover um evento que não deixaria a desejar em nada, se comparado àqueles realizados anteriormente, inclusive em países com infraestrutura sabidamente mais preparada que a nossa.

Quatro anos depois e passada toda a festa inicial, o que se vê são obras com o cronograma atrasado, principalmente aquelas relacionadas à mobilidade tanto dentro das cidades-sede quanto entre estas; entraves burocráticos na construção dos novos estádios e reforma dos existentes, além de greves que paralisaram as atividades em dois dos principais palcos para a Copa do Mundo, o Maracanã e o Mineirão, e que já chegam a ameaçar a realização da Copa das Confederações de 2013 nas cidades do Rio de Janeiro e de Belo Horizonte.

Fora toda a discussão sobre se o que foi planejado e o que é necessário erguer para realizar um evento de primeira linha e mostrar ao mundo do que este novo Brasil é capaz, existe a preocupação com os gastos públicos e a transparência no uso destes, uma vez que a sociedade deseja saber onde e de que forma o dinheiro do contribuinte está sendo aplicado e que tudo seja feito da maneira mais eficaz. Porém, o fato é que, durante o último ano, pipocaram acusações contra o chefe do Comitê Organizador da Copa no Brasil, o também presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Ricardo Teixeira e contra o Ministro dos Esportes, Orlando Silva, do Partido Comunista do Brasil (PC do B) lançando suspeitas sobre como este processo vem sendo conduzido.

No entanto, o que tem entrado em pauta nos últimos dias é a intervenção que é quase imposta pela FIFA, que inclui alterações de leis que são amplamente aprovadas pela sociedade, como a proibição da venda de bebidas alcoólicas dentro dos estádios, e até a restrição de direitos conquistados como a meia-entrada para estudantes e outras categorias, prática adotada há bastante tempo. O questionamento que deve ser feito é: vale a pena passar por cima de conquistas da sociedade, como o Estatuto do Torcedor, para realizar um evento do porte de uma Copa do Mundo?

Abdicar de tudo que foi construído ao longo do tempo com muita discussão e luta, e mostrar-se subserviente aos interesses puramente econômicos da FIFA seria aterrador para tantas gerações de brasileiros que brigaram para conseguir tornar o preço dos ingressos mais acessível e para tornar o estádio de futebol um ambiente menos violento. E, acima de tudo, aceitar as condições sugeridas (ou impostas) pela FIFA, seria mostrar que o Estado não respeita os acordos instituídos entre ele e a sociedade. Por último, a suspensão daquelas medidas somente durante o período da Copa daria a impressão – e permitam-me utilizar uma expressão futebolística – deque o país é uma “várzea”, onde tudo é permitido (desde que se pague bem por isso).

É inegável que a Copa trouxe uma boa dose de autoestima para o ego da nação neste momento de anseios e sonhos altos, como também é uma oportunidade de ouro de se corrigirem deficiências nos aeroportos do país e na malha de transportes das grandes cidades. Mas o que é inegável da mesma forma é que os brasileiros desejam que isso seja feito da maneira mais correta e transparente possível, sem que se tire nossa dignidade e sem que venham nos dizer quando e onde podemos utilizar nossos direitos.

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