sábado, 21 de janeiro de 2012

Humilhados e Ofendidos, de Dostoiévski

Nas quatro partes desta magnífica obra, Dostoiévski faz com que duas histórias, que por si mesmas seriam objeto de dois romances distintos não menos esplêndidos, cruzem-se e se interliguem de tal forma que o resultado torna o livro inesquecível e deixa uma impressão profunda.

Em uma das ramificações da história, o narrador-personagem Ivan Petróvitch nos conta sobre a sua relação com a família Ikhméniev, composta pelo patriarca Nikolai e sua mulher Anna Andreyevna, bem como o fruto da relação do casal, a querida e doce Natasha.

A família vivia em um ambiente harmônico permeado por amor, cumplicidade e afeto no pacato interior da Rússia até que uma tragédia se abate sobre eles. O inescrupuloso príncipe Valkovski, dono das terras de que Nikolai tomava conta, acusa-o de desonestidade no trato com seus negócios. Junta-se a esta acusação o surgimento de boatos na vizinhança de que Natasha teria seduzido o ingênuo filho de Valkovski, o inocente e por vezes leviano Aliocha.

Nikolai embarca para Petersburgo com sua família a fim de juntar condições para defender-se das calúnias impostas pelo príncipe. Embora a relação com Valkovski esteja deteriorada, os Iknhméniev continuam a receber Aliocha com honras e convivas. Porém, para piorar a situação do orgulhoso homem, sua filha acaba se apaixonando pelo filho do príncipe, saindo de casa e deixando o pai aterrado, humilhado e ofendido em sua dignidade. Ele não poderia suportar tamanha afronta ainda mais por se tratar do filho de seu algoz.

Durante este tempo, Ivan já residia em Petersburgo onde tinha levado a cabo seus estudos e já havia adquirido certa fama como escritor. Inesperadamente, ao procurar um novo apartamento para alugar, Ivan acaba se envolvendo com um senhor taciturno e misterioso que falece pouco tempo depois. Ivan se interessa pela história, aluga o apartamento onde ele residia e aguarda a aparição de parentes do velho. Uma menina completamente compenetrada e absolutamente temerosa surge procurando notícias sobre seu avô.

A partir daí desenrola-se uma trama densa e quanto mais Ivan escava coisas mais escabrosas vêm à tona. Ele se comove pela história de sofrimento de Nelli(apelido de Elena, a pequena garotinha) e resgata a criança das mãos da malvada Búbnova, com quem ela morava desde a morte de sua mãe.

Ivan se divide entre cuidar de Nelli e socorrer Natasha, sua paixão platônica desde os tempos de criança. Aliocha se mostra cada vez mais volúvel e indeciso. Ele passa o tempo todo percorrendo o trajeto entre a mansão da condessa, com cuja filha seu pai exige que ele se case, e a casa da sua devotada Natasha.

Aos poucos, Natasha percebe que Aliocha está mais ligado à amável, inteligente e bondosa filha da condessa. Natasha entende que a separação é inevitável e está disposta a abrir mão de sua felicidade pela de Aliocha, tamanho o seu amor. No entanto, antes disso, o malvado príncipe Valkovski consegue atingi-la em sua honra ao fazer uma indecente proposta: para afogar suas mágoas ela poderia cair nos braços de um lascivo conde, amigo de Valkovski.

Dois fatos concorrem para a reaproximação entre o pai ofendido e a filha ultrajada: a partida de Aliocha com a condessa para Moscou e o emocionado relato de Nelli, a pequena órfã, filha de uma mulher com uma história similar à de Natasha e que morreu miserável, sem o perdão do pai. Quando Nikolai decide ir pedir perdão à filha, esta adentra sua casa e os dois caem nos braços um do outro, num momento sublime de reconciliação.

Além do fascinante enredo, a construção psicológica dos personagens é impressionante. Alguns deles carregam em si a mais convicta altivez, uma incondicional honestidade e corações incrivelmente bondosos, enquanto outros são vis, levianos e repulsivos. Os diálogos entre os personagens são um espetáculo à parte, fazendo com que o leitor possa sentir junto com eles naquele momento e tão precisos que nos levam ao local dos acontecimentos. Cada nova situação é surpreendente e imprevisível e o desfecho traz uma abnegação quase sagrada.

Dostoiévski conseguiu se tornar um dos maiores escritores da história sem pedantismo, mas também sem subestimar a inteligência dos seus leitores. A sua forma de escrever é fluida e logo de cara estabelece uma relação íntima com o leitor. O cenário para suas histórias está no século XIX, mas elas são universais e com isso podem ser lidas, compreendidas e sentidas em qualquer época ou cultura.

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Nesta semana, a FIFA disse que os preparativos para a Copa do Mundo de 2018, na Rússia, estavam mais adiantados do que aqueles para a de 2014, aqui no Brasil.

Uma vez que o país soube que seria sede da próxima Copa em 2007, você acha que se o governo fosse comandado por outra pessoa ou por outro partido nós estaríamos com obras mais avançadas?

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

A greve dos policiais no Ceará e a sociedade repressora

Está na hora de repensar uma sociedade na qual policiais são mais importantes do que professores e médicos, por exemplo. Um sociedade que se mostra completamente vulnerável e refém de sua própria máquina repressora. Onde as palavras "coibir", "oprimir" e "proibir" são mais valorizadas e até certo ponto necessárias do que "educar" e "cuidar".

A greve dos policiais, em pouquíssimos dias, parou o Ceará, enquanto que as de profissionais da educação e da saúde se arrastaram durante meses sem que causassem tanto clamor popular e sem a mesma erosão na popularidade de um governador que está num partido dito socialista, mas que de socialismo só tem a letra S na sigla.

Acredito que para uma sociedade ser considerada verdadeiramente justa e igualitária e para que ela forneça o mínimo de qualidade de vida para seus componentes, ela não deve se valer mais da repressão e opressão em detrimento da construção de cidadania, nas escolas, e da prestação de cuidados aos necessitados, pelos profissionais de saúde e organizações sociais.

Enquanto nós seres humanos precisarmos ter alguém sempre à espreita, na vigília para que não cometamos delitos e enquanto não conseguirmos controlar nossos instintos animalescos, violentos e selvagens é sinal de que estamos no caminho errado, muito distantes de viver numa sociedade ideal.

PS: Uma vez que o que está escrito acima é algo distante da realidade, continuemos descendo o pau no CIDitador incompetente.